© 2026 CISC - Centro de Informação em Saúde e Clima

1ª Edição

Informação:
Prefeitura de Cuiabá / Secretária de Vigilância em Saúde e Ambiente / Centro de Informação em Saúde
e Clima (CISC)

Avenida Bernardo Antônio de Oliveira Neto, nº 1781, Ribeirão do Lipa, Cuiabá - MT

Prefeito
Abilio Jacques Brunini Moumer
Elaboração e Revisão Técnica
Hugo Vilela Lemos Ferreira
Secretária Municipal de Saúde de Cuiabá
Deisi de Cassia Bocalon Maia
João Paulo Lima Moreira
Luis Fernando Lara Marques
Secretário Adjunto de Gestão
Loicy Aparecida da Silva Cunha
Monyque de Souza Reis
Walquirya Borges Simi
Secretário Adjunto de Atenção Primária
Cinara Thais S. Brito Sobrinho
Coordenadora CISC
Maria Angélica Oliveira Marinho
Secretário Adjunto de Atenção Secundária
Odair Mendonsa da Silva
Colaboradores
Atenção Primária de Saúde
Secretária Adjunta de Atenção Hospitalar e Complexo Regulador
Erika Auxiliadora Duarte Carvalho
Vigilância Epidemiológica
Secretária Adjunta de Atenção Especializada e Vigilância em Saúde
Najla Brito Lima Muller Ribeiro
Capa
Luis Fernando Lara Marques
Secretária Adjunto de Assistência Farmacêutica
Claudia Aparecida S. Braga
Secretário Adjunto de Saúde Bucal
Cristhiane Almeida Leite Silva
Diretora de Vigilância em Saúde
Adriana Queiroz de Campos

1 Apresentação

O Centro de Informação em Saúde e Clima (CISC), no âmbito do Ministério da Saúde (MS), em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde de Cuiabá (SMS Cuiabá), atua de forma interdisciplinar e intersetorial na integração de dados de saúde, território e clima para apoiar a gestão pública e subsidiar a tomada de decisão. Sua atuação estratégica foca na vigilância e no monitoramento de eventos climáticos extremos, como ondas de calor, secas e queimadas, visando compreender seus impactos diretos e indiretos na saúde da população cuiabana, a fim de antecipar riscos e fortalecer a capacidade de resposta da rede de atenção e do Sistema Único de Saúde (SUS). As variações climáticas extremas e o estresse térmico representam determinantes de grande relevância para a saúde pública, influenciando o perfil de morbimortalidade por doenças cardiovasculares, respiratórias e outros agravos sensíveis ao clima. A análise sistematizada desses cenários e a produção contínua de evidências científicas e epidemiológicas são fundamentais para orientar políticas públicas de mitigação, adaptação climática e promoção da equidade em saúde. No âmbito municipal, o fortalecimento da vigilância em saúde ambiental e clima consolida-se por meio de esforços integrados para a implementação e o acompanhamento de ferramentas de monitoramento contínuo, como diagramas de controle, sistemas de alerta e o Semáforo de Calor, permitindo uma atuação preventiva e articulada entre os diferentes níveis de atenção à saúde.

2 Caracterização de Cuiabá, MT

2.1 Caracterização física

Localizado no Centro-Oeste brasileiro, Cuiabá é a capital do estado de Mato Grosso, pertencente à região centro-sul. Possui uma área territorial de 4.327,22km², dividido em áreas rural e urbana, sendo esta composta por quatro regiões, Leste, Norte, Oeste e Sul (Figura 1).

Figura 1. Localização do município de Cuiabá no estado de Mato Grosso, e suas quatro regiões administrativas urbanas.

Fonte: IBGE (2022).
Fonte: IBGE (2022).

Cuiabá, assim como outros municípios da região central do país, está inserido em uma região de baixa altitude em meio ao bioma Cerrado, com características de um clima tipo tropical continental. O Cerrado é considerado o segundo maior bioma brasileiro, com uma rica biodiversidade, com mais de 10.000 espécies vegetais caracterizadas por serem de baixo porte, de formato retorcido e tortuoso, uma adaptação ao clima seco e a pobreza de nutrientes do solo, singularidades das áreas de savana (de Oliveira et al., 2020).

O Cerrado desempenha um papel estratégico e vital para o Brasil por abrigar nascentes e afluentes que alimentam oito das 12 grandes bacias hidrográficas do país, destacando-se como uma das maiores zonas de recarga hídrica, alimentando importantes aquíferos subterrâneos, como o Guarani. Dessa forma, o bioma desempenha um papel crucial para o país, recebendo o nome popular de “caixa d’água do Brasil”, devido à sua dinâmica com biomas vizinhos, sobretudo o Pantanal, que recebe uma importante parcela hídrica das nascentes do Cerrado, que compensa sua elevada evaporação, mantendo o fluxo de suas águas. Além desse equilíbrio ecológico, essa disponibilidade hídrica sustenta a geração de energia hidrelétrica nacional e impulsiona a produção agropecuária brasileira, reforçando a urgência do uso sustentável e do manejo conservacionista desse ecossistema (Bandeira et al., 2018 e Souza et al., 2019).

A expansão de monoculturas e pastagens vêm desempenhando um elevado crescimento no desmatamento, com taxas superiores à Floresta Amazônica, ainda que 8,2% do bioma seja legalmente protegido. Diante desse cenário, tem-se evidenciado que em aproximadamente 35% da área desmatada, o volume pluviométrico tem 15% de chance de reduzir de 15 a 30%, e 7% da temperatura aumentar em 1,5ºC. Em um cenário mais agravado, em que 80% do bioma é desmatado, pode ocorrer 22% menos chuvas, e a temperatura tem aproximadamente 15% de chance de aumentar 1,5ºC em relação à média histórica (Leite Filho, 2022). Dados do MapBiomas (2025) evidenciam que já houve uma perda de 28% de vegetação nativa, correspondendo a 40,5 Mha, perdendo apenas para os pampas que perderam 30%, desde 1985.

Nesse sentido, a ecologia do bioma tem se alterado, e em alguns locais pode se tornar irreversível. Durante o período de estiagem, a temperatura pode chegar a ficar 4ºC mais quente do que nos anos 1960, e mais seco, com 15% menos umidade. Além disso, as queimadas estão cada vez mais frequentes, duradouras e intensas (Hofmann, 2021; Zorzetto, 2021). Essas queimadas, principalmente nas estações de seca, ainda que os focos não ocorram na área urbana, exalam uma quantidade de fumaça que pode atingir populações que residem nas áreas periféricas do município, podendo alcançar a região central, formando plumas de fumaça, ocorrência de fuligem, elevação da temperatura local e aumento de agravos respiratórios (Teixeira et al., 2021), podendo aumentar a busca por unidades de saúde, sobrecarregando-as.

Esse cenário pode acometer municípios vizinhos com quem Cuiabá faz fronteira, Chapada dos Guimarães, Santo Antônio do Leverger, Campo Verde, Acorizal e Várzea Grande, sendo que este último, que junto à Capital contempla uma conurbação, conhecida como Grande Cuiabá, recebendo a fumaça das queimadas da proximidade dos municípios.

O limite com o município de Chapada dos Guimarães tem seu traçado definido pelas bordas escarpadas do Planalto dos Guimarães, variando de 300 a 800 metros de altitude quando mais próximo à Chapada, sendo esta uma morfoescultura do relevo pertencente ao grande conjunto dos Planaltos e Chapadas da Bacia sedimentar paleozóica do Paraná. Também, o limite com Várzea Grande e Acorizal, mais próximos da área urbana, contempla feições morfológicas do conjunto estrutural de cinturões orogênicos antigos, esculpidos pelo rio Cuiabá, delineando a morfoescultura da Depressão Cuiabana e do Alto Paraguai (Ross, 2016), conhecida na região por “baixada cuiabana”, com altitudes entre 140 e 260 metros, podendo alcançar 280 metros em alguns pontos (Figura 2).

Figura 2. Altimetria do terreno do perímetro de Cuiabá, MT.

Fonte: Ferreira (2019). Cuiabá teve seu início a partir do sopé da região Norte, Nordeste e Centro-Norte, às margens do córrego da Prainha, com os campos de mineração. A área urbana, apesar de não ser considerada plana, também não possui um relevo acidentado ou com alta declividade. As áreas edificadas encontram-se em sopés e terraços de encostas, em encostas, em cumeeiras e vales de morros. Ou seja, toda uma diversidade de misturas entre as formas da topografia e a ocupação humana (Ferreira, 2019).

A área urbana é banhada por diversos rios e córregos, além do Rio Cuiabá, sendo que o Ribeirão do Lipa e o Rio Coxipó são destaques. Ademais, outros córregos perfazem a mancha urbana, como córrego Tijucal, córrego do Barbado, córrego do Moinho e córrego da Prainha (Figura 3). Muitos córregos são canalizados e parte do esgoto é despejado neles, assim como em leitos naturais. Ademais, há possibilidade de alagamento em determinadas áreas, que ocorre devido à inadequada infraestrutura do município, e à canalização dos rios (Ferreira, 2019).

Figura 3. Hidrografia urbana do município de Cuiabá, MT. Fonte: Ferreira (2019). Devido às suas características físicas, sua localização e altitude, o Centro-Oeste apresenta duas estações bem definidas, uma seca e outra chuvosa. O verão é a estação mais quente e úmida, que, devido às massas de ar continentais instáveis, faz com que ocorra elevada precipitação. Por outro lado, no inverno, ocorre um sistema de alta pressão provocando estiagem e queda da umidade relativa do ar. A massa polar atlântica atua durante os meses de inverno possibilitando uma queda abrupta na temperatura (Monteiro, 1951).

Monteiro (1951) ainda destaca que Cuiabá se situa em uma depressão topográfica entre planaltos e a Chapada dos Guimarães, que funciona como um retentor de calor, e bloqueia a circulação de ventos. Devido a essa posição de baixa altitude, o município apresenta médias térmicas elevadas e picos de temperatura nos períodos que antecedem o início das chuvas. No inverno, a seca é um período rigoroso, principalmente em relação à umidade, e pode apresentar picos de frio em um curto espaço de tempo devido à massa polar atlântica.

As alterações antrópicas no ambiente e planejamento urbano vêm influenciando no aumento da temperatura. Especificamente em Cuiabá, entre 1985 e 2021, a temperatura aumentou 13ºC, como resultado da expansão e desmatamento urbano, principalmente nas áreas periféricas (Soria et al., 2024). Esse resultado reflete em questões sociais, já que nas periferias residem mais pessoas de pele parda e preta, e no centro aquelas com pele branca, evidenciando o racismo ambiental (Bullard, 2025).

Nesse sentido, as árvores possuem uma função de mitigação microclimática, reduzindo a temperatura dos ambientes. Ao plantar árvores em calçadas, elas contribuem para a diminuição da exposição solar direta dos pedestres, e menor incidência solar sobre o asfalto, resultado em queda das temperaturas, devido à copa das árvores impedirem que a radiação atinja o solo. Outros ganhos importantes estão relacionados à elevação da umidade local e à melhoria do conforto térmico (Nunes et al., 2025).

Esses fatores, em Cuiabá, possuem singular importância, haja vista que a perda de cobertura vegetal potencializa o aquecimento de superfícies impermeáveis e solo exposto na época de seca. E, durante o período noturno, a temperatura pode se manter elevada, devido a retenção de calor, que a mantém alta devido em áreas mais adensadas (Ferreira et al., 2020).

2.2 Caracterização sociodemográfica e econômica

A população cuiabana, segundo último Censo demográfico, era composta de 650.877 habitantes, com um crescimento estimado de 7,4% para 2026, contando atualmente com aproximadamente 698.917 residentes (IBGE, 2022, 2026). Considerando esses dados do último Censo, 51,6% das pessoas são do sexo feminino, e 48,4% do sexo masculino. O Gráfico 1 apresenta o número de habitantes por sexo e faixa etária, sendo observado a redução na faixa etárias mais jovem (0 a 4 anos), e predomínio do sexo masculino até a faixa etária dos 20 a 24 anos, com aumento acentuado do sexo feminino até aquelas com 70 anos e mais.

O perfil populacional conta ainda com uma maioria de pessoas negras (pretos, pardos e indígenas), 66,1%. Entre as quatro regiões urbanas de Cuiabá, a Norte é a que contempla a maior proporção de negros, 75%, enquanto os não negros (brancos e amarelos) perfazem a maioria na região Oeste. A Figura 4 apresenta, a porcentagem de negros por setor censitário, onde é possível observar a região Norte com as maiores porcentagens, assim como uma grande proporção na região Sul. As áreas em branco são aquelas em que não houve informação de raça/cor. os valores por Região podem ser observados na Tabela 1.

Gráfico 1. Pirâmide etária dos sexos da população de Cuiabá- MT, segundo Censo demográfico do IBGE, 2022.

Fonte: IBGE (2022). Figura 4. Porcentagem de negros por setor censitário na área urbana de Cuiabá- MT, segundo Censo demográfico de 2022.

Fonte: IBGE (2022).
Fonte: IBGE (2022).

Tabela 1. Perfil populacional segundo sexo e raça/cor em Cuiabá- MT, de acordo com o Censo demográfico 2022.

Cor/Raça Masculino % Feminino % Total (%)
Branca 92.704 30,3% 104.332 31,8% 197.036 (31,1%)
Amarela 1.272 0,4% 1.343 0,4% 2.615 (0,4%)
Preta 44.581 14,6% 41.871 12,8% 86.452 (13,6%)
Parda 167.459 54,7% 180.188 54,9% 347.647 (54,8%)
Indígena 281 0,1% 353 0,1% 634 (0,1%)
Total 306.297 48,3% 328.087 51,7% 634.484*

Fonte: IBGE (2022). *valores inferiores à totalidade ocorrem devido a diferença entre população total e amostra.

Quanto à renda, Cuiabá apresentou um rendimento médio de R$3.293,58, ou seja, 2,7 salários mínimos (R$1.212,00) à época do Censo. O menor valor encontrado em um setor foi de R$1.134,33, e o maior foi R$29.926,64. Pode-se observar que, enquanto o setor com o menor quantitativo médio representa um valor inferior ao salário mínimo (0,9), o setor mais rico contemplou 24,6 salários mínimos. A Figura 5 apresenta um histograma do número de setores censitários por salário mínimo, observando uma assimetria à esquerda, sendo identificados a maioria dos setores com até três salários mínimos (61,6%), e apenas sete (0,6%) com 16 salários mínimos ou mais. A Figura 6 apresenta um mapa dos dados de renda por salário mínimo à época. As cores mais claras identificam setores com até dois salários mínimos e de dois a quatro, que representam 826 (73,3%), do total de setores da mancha urbana de Cuiabá.

Ao observar a Figura 6, e comparar com a Figura 2, pode-se notar que regiões majoritariamente composta por uma população negra, também apresenta baixos salários, podendo identificar uma importante disparidade racial e econômica no município.

Figura 5. Histograma dos salários por setor censitário do município de Cuiabá- MT, segundo Censo demográfico IBGE, 2022.

Fonte: IBGE (2022). Figura 6. Rendimento nominal mensal dos responsáveis pelos domicílios em Cuiabá- MT, segundo censo demográfico de 2022.

Fonte: IBGE (2022). Dados do e-PEC SUS de 2026 mostram os salários por residências. Observa-se que 10,8% dos residentes não responderam seus salários nas entrevistas realizadas por agentes comunitários de saúde e outros profissionais de saúde. Neste ano, o salário mínimo corresponde a R$1.621,00, sendo que 4% referiram receber entre ¼ (1,2%) e ½ (2,5%) salário mínimo por família, e 0,5% cinco ou mais salários (Figura 7).

Figura 7. Histograma dos salários mínimo por residência, segundo e-PEC SUS em 2026 para o município de Cuiabá- MT.

Fonte: e-PEC SUS.
Fonte: e-PEC SUS.

A Figura 4 identifica uma maior concentração da população negra nas áreas periféricas de Cuiabá. Nesse contexto, indivíduos com menor escolaridade e residentes em regiões socioeconomicamente mais vulneráveis tendem a enfrentar deslocamentos mais longos até as áreas centrais da cidade e, frequentemente, até seus locais de trabalho. Consequências disso são sentidas devido ao tempo diário necessário para deslocamento, reduzindo tempo para atividades de lazer, descanso e convívio social.

Nesse sentido, a maioria das pessoas não negras despendem um menor tempo para se deslocarem de suas residências para o trabalho, 70,7% levam até 30 minutos. Em contrapartida, 36,6% de pessoas negras levam de meia hora a quatro horas para chegarem a seus ofícios (IBGE, 2026). Essa população negra, além de permanecer maior período em deslocamento, também é maioria em transportes públicos (26,6%), e motocicletas (20,9%), exigindo maior exposição ao sol e calor excessivo, seja em trânsito, ou aguardando o transporte.

A arborização urbana desempenha um papel fundamental na regulação microclimática e na redução da temperatura local. Observa-se, no entanto, uma desigualdade espacial evidente: nas áreas periféricas, de maioria negra e renda de até dois salários mínimos, a cobertura vegetal é inferior a 20% (Figura 8). Esse cenário evidencia a prática do racismo ambiental, que amplia a vulnerabilidade dessas populações ao privá-las de infraestrutura verde e expô-las com maior intensidade aos riscos climáticos, agravando ainda mais o desconforto térmico no contexto de Cuiabá.

Figura 8. Porcentagem do número de domicílios arborizados por setor censitário na mancha urbana de Cuiabá- MT, segundo Censo Demográfico 2022.

Fonte: IBGE (2022).
Fonte: IBGE (2022).

A Figura 9 apresenta a porcentagem de abastecimento de água e tratamento de esgoto sanitário no município, por setor censitário. Os dados do IBGE (2022) foram traduzidos em adequado e inadequado, sendo que a Figura apresenta a porcentagem de domicílios por setor com disponibilidade de água e tratamento de esgoto adequados. Observa-se que há uma ampla distribuição de água no município, com a menor porcentagem distribuída entre setores mais periféricos. O tratamento de esgoto sanitário se apresenta mais deficitário do que o abastecimento de água, e em áreas periféricas do município.

São considerados abastecimentos de água adequados aqueles domicílios que utilizam a rede geral de distribuição, poço artesiano, nascente e carro pipa. Domicílios que utilizam poço raso, ou freático, chuva armazenada, provenientes de rios e açudes e outras formas de abastecimento, são consideradas formas inadequadas.

Quanto ao esgotamento sanitário, são considerados adequados aqueles domicílios cuja destinação de dejetos é coletada pela rede geral e fossa séptica. São considerados inadequados aqueles domicílios que utilizam buraco, vala, rios e córregos, e outras formas, ou mesmo aqueles que não possuem banheiro ou sanitário.

Os dados do e-PEC SUS 2026 revelam que, o esgotamento sanitário por rede coletora atende 52,1% das residências, e 18,1% possuem fossa séptica. Residências que não possuem formas apropriadas de tratamento são 16,1%, e 13,7% não informaram. A principal forma de abastecimento de água dos imóveis, a rede fluvial abrange 85,4%. A forma de consumo de água varia, sendo que 4,6% consomem água fervida, 12,3% clorada, 36,9% mineral e 21,7% filtrada, e outras formas são 10,1%. Cinco por cento dos imóveis consomem água não tratada e 1,5% não informaram.

Em relação à Figura 10, observa-se que formas inadequadas de coleta de lixo ocorrem principalmente na periferia do município de Cuiabá. Essas formas inadequadas ocorrem quando os domiciliados queimam, enterram, jogam, e dão outros destinos ao lixo, que não aqueles coletados pelo serviço de limpeza ou depositados em caçambas.

Figura 9. Porcentagem do abastecimento de água e do tratamento de esgoto sanitário em Cuiabá- MT, por setor censitário do IBGE (2022).

Fonte: IBGE (2022).
Fonte: IBGE (2022).

Figura 10. Porcentagem de domicílios com coleta de lixo adequada em Cuiabá- MT, por setor censitário, IBGE (2022).

Fonte: IBGE (2022). Favelas e comunidades urbanas são identificadas seguindo alguns critérios. O principal é que há uma predominância de domicílios com graus de insegurança jurídica da posse, somado a um desses três critérios: ausência ou oferta incompleta e/ou precária de serviços públicos; edificações, arruamentos e infra estrutura auto produzidos, não seguindo orientações urbanísticas; e localizados em áreas com restrição à ocupação definidas pela legislação ambiental, ou mesmo urbanística (IBGE, 2024).

Nesse sentido, Cuiabá apresenta 47 Favelas, distribuídas em todas as regiões da área urbana, mas principalmente nas regiões Norte e Sul (Figura 11). Assim, ocupam essas áreas cerca de 70.169 pessoas (10,8%), sendo 49,8% do sexo masculino e 50,2% do sexo feminino. Dessa população, 80,9% são negros (pretos, pardos e indígenas), e a renda média é de R$2.038,90, o que representa menos de dois salários mínimos à época.

Figura 11. Mapa das favelas de Cuiabá- MT, segundo IBGE (2022).

Fonte: IBGE (2022). O IBGE considera a faixa etária de pessoas alfabetizadas com 15 anos ou mais, que em Cuiabá corresponde à 79,1% da população. É observado que entre o sexo masculino, a porcentagem de pessoas alfabetizadas supera os 95%, até a faixa etária dos 50 a 54 anos. Para o sexo femino essa porcentagem se concentra até a faixa etária dos 55 a 59 anos. Ainda assim, até os 69 anos, 90% dessa população é alfabetizada, reduzindo entre aqueles com 70 anos e mais, sendo que entre os mais idosos, 80 anos e mais, esse valor é inferior a 75% (Figura 12). Essa configuração pode estar relacionada a pessoas mais idosas precisarem ter abandonado seus estudos quando jovens para ajudar no sustento do lar, iniciando precocemente no mercado de trabalho, ou mesmo à falta de oportunidades de estudo, como residir longe da escola, ou pouca instrução (Barros et al., 2021).

Essa relação pode também ser observada sob outra perspectiva, quando se comparar os grupos de raça/cor. Entre os indivíduos considerados negros (pretos, pardos e aqui são acrescentados os indígenas), a taxa de analfabetismo é mais elevada do que entre os não negros (brancos e amarelos) (Figura 13). Essas disparidades podem refletir desigualdades sociais históricas e estruturais, que se manifestam em diferentes dimensões da vida, como renda, local de residência e acesso aos serviços disponíveis no município.

Figura 12. Taxa de alfabetização por faixa etária, em Cuiabá- MT, segundo o Censo demográfico de 2022.

Fonte: IBGE (2022). Figura 13. Taxa de alfabetização por raça/cor em Cuiabá- MT, segundo o Censo demográfico de 2022.

Fonte: IBGE (2022). Da população cuiabana, 73% é coberta por Unidades de Saúde da Família (USF). O município conta com 123 equipes, divididas em 68 unidades, ao observar os dados do e-PEC SUS para agosto de 2026. Esses valores refletem o número de indivíduos com prontuários ativos e que recebem visitas domiciliares ou realizam consultas frequentes, ainda que 100% possa ser atendido por essas unidades.

Na Figura 14 é possível observar as USF, e um vazio de Unidades na região Leste. Isso pode ocorrer porque se trata de uma região com uma população residente com maior poder aquisitivo, e maior incidência de uma população com planos de saúde.

Na Figura é possível observar 54 pontos, que correspondem às USF. Porém, algumas Unidades comportam duas, três ou mais equipes em sua área de abrangência. Ainda que não contemple 100% da área do município, toda a população tem direito a utilizar alguma unidade próxima à sua residência, garantindo atendimento a todo o município.

Figura 14. Unidades de Saúde da Família em Cuiabá- MT.

Fonte: IBGE (2022); e-PEC SUS (2026).
Fonte: IBGE (2022); e-PEC SUS (2026).

3 Caracterização das Principais Ameaças Climáticas em Cuiabá

As principais ameaças climáticas em Mato Grosso que afetam Cuiabá e demais municípios do estado, estão ligadas a ocorrência de eventos extremos de temperatura, secas prolongadas e intensificação de incêndios ambientais provocados por ações antrópicas relacionados ao desmatamento e ao agronegócio, impactando na dinâmica dos períodos de chuva e estiagem, na disposição de vetores e em agravos na saúde da população.

3.1 Secas e estiagens

A dinâmica de sazonalidade do estado ocorre em um território ambientalmente heterogêneo, formado pelos biomas Amazônia, Cerrado e Pantanal. A ocorrência de um período seco anual é uma característica climática esperada da região. Entretanto, episódios de seca caracterizam-se pela persistência e intensificação anômala do déficit hídrico, podendo comprometer a disponibilidade de água no solo, nos cursos d’água, nos reservatórios e nos sistemas de abastecimento (Commar et al., 2024).

Ao avaliar secas nos três biomas de Mato Grosso, entre 1970 e 2022, utilizando o SPEI (Índice Padronizado de Precipitação e Evapotranspiração), Fernandes et al. (2024) identificaram tendência de redução desses indicadores ao longo do período, indicando intensificação das condições de seca. Foram registrados eventos moderados, severos e extremos em todos os biomas, com maior severidade no Pantanal entre 2019 e 2022 e maior ocorrência de secas extremas na Amazônia e no Cerrado entre 2020 e 2022. No mesmo período, Cerrado e Pantanal apresentaram valores particularmente elevados de severidade, intensidade e duração dos eventos. Esses resultados evidenciam que a ameaça não se restringe à sazonalidade habitual da estação seca, mas pode assumir caráter prolongado e de grande magnitude (Lowe et al., 2014).

A duração constitui um componente particularmente relevante, pois os efeitos de uma seca podem persistir durante vários meses e, em eventos de maior intensidade, ultrapassar uma única estação climática. A persistência do déficit de precipitação, associada a temperaturas elevadas e maior demanda evaporativa, pode prolongar a redução da umidade do solo e da disponibilidade hídrica mesmo após a retomada das chuvas (Vicente-Serrano et al., 2022).

Quanto à extensão espacial, as secas podem afetar simultaneamente grandes parcelas do território estadual, embora sua intensidade varie entre os biomas. Estudos sobre a Amazônia demonstram que os eventos de seca apresentam padrões espaciais de grande escala, incluindo componentes norte-sul e leste-oeste, relacionados principalmente às anomalias da temperatura da superfície dos oceanos Pacífico e Atlântico (Lima et al., 2018). Nesse sentido, a ocorrência da seca em Cuiabá deve ser interpretada no contexto de processos climáticos que ultrapassam os limites municipais e estaduais.

A ameaça apresenta também um grau importante de previsibilidade sazonal. Variações associadas ao El Niño–Oscilação Sul e às temperaturas do Atlântico Tropical influenciam o regime de precipitação e a ocorrência de condições quentes e secas na Amazônia e no Centro-Oeste. Modelos baseados nessas teleconexões apresentaram capacidade de prever índices de seca na Amazônia legal com vários meses de antecedência, com correlação entre valores observados e previstos de até 0,60 para horizonte de cinco meses, e 0,45 para nove meses. Essa previsibilidade não permite determinar com precisão todos os impactos locais, mas possibilita antecipar períodos com maior probabilidade de déficit hídrico e apoiar ações de vigilância e preparação (Lima et al., 2018).

Em Cuiabá, os efeitos da estação seca podem ser amplificados pelas características do ambiente urbano. A remoção da cobertura vegetal, a impermeabilização do solo e o predomínio de superfícies com elevada absorção e armazenamento de energia modificam o balanço térmico urbano e contribuem para diferenças microclimáticas entre setores da cidade. Estudos realizados no município demonstram a relação entre características da cobertura do solo e temperatura do ar e identificam a ocorrência de ilhas de calor e diferenças termo-higrométricas no espaço urbano (de Souza et al., 2020; Souza et al., 2021).

Do ponto de vista da saúde, a redução da disponibilidade e da qualidade da água pode comprometer o consumo, a higiene e a segurança alimentar. Além disso, a coincidência entre seca, baixa umidade, temperaturas elevadas, poeira e fumaça de queimadas cria um cenário de exposições ambientais simultâneas. Dessa forma, a seca deve ser interpretada não apenas como déficit pluviométrico isolado, mas como uma ameaça capaz de potencializar outros riscos climáticos, ambientais e de saúde (Reid et al., 2016; Bryan et al., 2020; Hu et al., 2025).

3.2 Queimadas e incêndios florestais

As queimadas e os incêndios florestais constituem ameaças de elevada relevância em Mato Grosso, especialmente durante a estação seca. Sua ocorrência resulta da interação entre condições meteorológicas, disponibilidade de material combustível, características da vegetação, mudanças no uso e cobertura da terra e fontes de ignição, predominantemente de origem humana. A baixa umidade do solo e da vegetação, a ausência prolongada de precipitação e as temperaturas elevadas aumentam a inflamabilidade da paisagem e favorecem a propagação do fogo (Libonati et al., 2021; Volpato et al., 2022).

A magnitude dos eventos pode ser expressiva. Ao utilizar múltiplos sensores de observação da Terra, Shimabukuro e colegas (2020) mapearam aproximadamente 93 mil km² de área queimada em Mato Grosso no período analisado, correspondendo a cerca de 10,3% da área estadual. Aproximadamente dois terços da área queimada encontravam-se em formações não florestais. Esses valores demonstram que, em anos de elevada atividade do fogo, a ameaça pode atingir dimensões regionais, muito superiores ao entorno imediato dos focos detectados por satélite.

A dimensão do problema torna-se ainda mais evidente em anos extremos. Durante a seca de 2010, estima-se que aproximadamente 96,9 mil km² de Mato Grosso tenham sido queimados entre junho e meados de outubro, correspondendo a cerca de 11% da área estadual. O fogo atingiu aproximadamente 60,5 mil km² de Cerrado, e 13 mil km² de florestas maduras, evidenciando extensa distribuição espacial do evento (Miettinen et al., 2016).

A ocorrência apresenta forte sazonalidade e concentração temporal. Em Cuiabá, foi observado que aproximadamente 67% (115.165) dos focos de queimadas registrados em 2012 ocorreram somente nos meses de agosto e setembro (Santiago et al., 2015). Os autores relataram ainda o aumento acentuado das concentrações de material particulado entre julho e setembro, chegando a 306 μg/m³ após longo período sem precipitação.

Esses resultados são importantes para caracterizar a duração da exposição. Embora um foco individual possa permanecer ativo por períodos relativamente curtos, episódios de fumaça podem persistir por dias ou semanas, devido à ocorrência sucessiva de incêndios, à baixa dispersão atmosférica e ao transporte regional dos poluentes. Em Cuiabá, a configuração topográfica e as condições de estabilidade atmosférica durante a seca podem dificultar a dispersão de poluentes. Além disso, massas de ar provenientes da Amazônia podem transportar material particulado de áreas queimadas distantes, demonstrando que a exposição da população urbana não depende exclusivamente de incêndios ocorridos dentro do município (Santiago et al., 2015).

Portanto, a extensão espacial dessa ameaça deve ser compreendida em duas dimensões: a área diretamente atingida pelo fogo e a área alcançada pela pluma de fumaça. Essa distinção é relevante porque municípios sem grandes áreas queimadas podem apresentar aumento da exposição ao PM₂,₅ devido ao transporte atmosférico regional.

A dimensão sanitária dessa exposição está bem documentada. Ao analisarem hospitalizações entre 2008 e 2018, Réquia e colaboradores (2021) identificaram um aumento de 23% por causas respiratórias e 21% nas circulatórias, durante ondas de poluição associadas a incêndios florestais. Os autores demonstraram que essas elevações se referiram a períodos prolongados de incêndios florestais e não a qualquer episódio isolado de fogo.

Em Cuiabá, análises ambientais também demonstraram importante variabilidade do PM₂,₅ com concentrações diárias estimadas chegando a valores superiores a 170 μg/m³ no período analisado, mostrando a coexistência entre elevada poluição atmosférica, variações climáticas e eventos adversos à saúde (Nascimento et al., 2025).

Quanto à previsibilidade, a atividade do fogo apresenta componente sazonal significativo, uma vez que sua probabilidade aumenta à medida que se acumulam déficit hídrico, baixa umidade do combustível e elevadas temperaturas. Além disso, sistemas de previsão do perigo de incêndio podem incorporar previsões sazonais de precipitação e temperatura. Estudos internacionais aplicados a ecossistemas tropicais demonstram que a influência de anomalias da temperatura da superfície dos oceanos sobre a estação seca permite alguma antecipação do risco de incêndios, particularmente na Amazônia (Tourigny et al., 2019).

Assim, para o município, a análise da ameaça deve combinar não apenas a contagem de focos de calor, mas também área queimada, duração dos episódios de fumaça, concentração de PM₂,₅, ausência de precipitação, umidade relativa, direção dos ventos e localização das áreas queimadas, permitindo interpretar adequadamente sua magnitude e alcance territorial.

3.3 Calor extremo e ondas de calor

O calor extremo representa uma ameaça climática particularmente relevante em Cuiabá, onde temperaturas elevadas fazem parte do regime climático habitual. Por essa razão, sua caracterização não deve basear-se apenas em um valor absoluto de temperatura, mas na ocorrência de temperaturas excepcionalmente elevadas em relação ao padrão climático local, especialmente quando persistem por vários dias consecutivos.

A magnitude de uma onda de calor pode ser expressa pela elevação da temperatura em relação ao percentil climático de referência, pela temperatura máxima alcançada, pela persistência de mínimas noturnas elevadas e pela carga térmica acumulada. A duração, por sua vez, corresponde ao número de dias consecutivos sob condições extremas, enquanto a frequência representa quantos episódios ocorrem em determinado período. Esses componentes devem ser analisados conjuntamente, pois ondas mais intensas ou persistentes podem produzir maiores repercussões mesmo quando possuem frequência relativamente baixa (Panda, 2017; Shiva et al., 2019; Wanyama et al., 2023).

Silveira e colaboradores (2023) conduziram um estudo envolvendo 32 municípios da Amazônia Legal, incluindo os municípios mato-grossenses Cuiabá, Várzea Grande, Rondonópolis e Sinop, demonstrando uma associação entre ondas de calor e aumento da mortalidade. O risco relativo combinado de mortalidade por causas não externas variou de 1,03 para definições menos restritivas a 1,18 para ondas de calor mais severas. A intensidade mostrou-se mais importante do que a simples duração para determinar o risco de mortalidade, embora ambos os componentes sejam epidemiologicamente relevantes.

Análise nacional das principais regiões metropolitanas brasileiras identificou Cuiabá entre aquelas com maiores taxas normalizadas de mortes excedentes relacionadas às ondas de calor entre 2000 e 2018. No período de 2014 a 2018, o município permaneceu entre as regiões metropolitanas com maior impacto proporcional, reforçando a importância local dessa ameaça (Monteiro dos Santos et al., 2024).

Existe também evidência epidemiológica específica. Um estudo com 1.612 internações pediátricas por doenças respiratórias, ocorridas entre 2016 e 2018, identificou que um aumento de 4°C na temperatura mínima diária foi associado ao aumento de 18% no risco de hospitalização, com efeitos observados entre um e cinco dias após a exposição. Aproximadamente 15,2% das internações avaliadas foram atribuídas a esse incremento térmico no modelo utilizado (Nascimento et al., 2025). Em âmbito nacional, um estudo com 1.814 municípios brasileiros mostrou que cada aumento de 5°C na temperatura média durante a estação quente esteve associado a um aumento de aproximadamente 4% no risco de hospitalização ao longo dos sete dias subsequentes. O Centro-Oeste apresentou uma das maiores cargas de internações atribuíveis ao calor no país, resultado especialmente relevante para a interpretação do contexto de Cuiabá (Nascimento et al., 2025).

A extensão espacial do calor extremo dentro da cidade não é uniforme. A cobertura vegetal, a densidade construída, o tipo de pavimento, a geometria urbana e a disponibilidade de áreas verdes modificam as condições microclimáticas. Estudos realizados em Cuiabá demonstraram diferenças de temperatura associadas à cobertura do solo e à formação de ilhas de calor, indicando que a temperatura medida em uma estação meteorológica representa a condição climática geral, mas não necessariamente toda a heterogeneidade térmica existente no espaço urbano (Souza et al., 2021).

Diferentemente das secas, cuja antecipação pode ocorrer em escala sazonal, ondas de calor podem ser previstas a partir dos modelos meteorológicos com vários dias de antecedência. Além disso, previsões sazonais podem indicar meses com probabilidade aumentada de temperaturas acima da média. Assim, a combinação entre monitoramento observado e previsão meteorológica permite estabelecer sistemas de alerta antecipado e preparar serviços de saúde para períodos de maior demanda (Korhonen et al., 2025).

3.4 Alterações na distribuição de vetores e hospedeiros

As mudanças climáticas podem modificar a distribuição geográfica, a abundância e a sazonalidade de vetores e hospedeiros por meio de mudanças na temperatura, precipitação, umidade, disponibilidade de criadouros e características da cobertura vegetal. Entretanto, diferentemente das ameaças meteorológicas diretas, a relação entre clima e doenças vetoriais é mediada por fatores biológicos, demográficos e sociais, não sendo adequada uma interpretação exclusivamente climática (Semenza et al.,, 2022).

No caso do Aedes aegypti, a temperatura e a pluviosidade influenciam o desenvolvimento larval. A sobrevivência, o comportamento alimentar e o período de incubação extrínseca dos arbovírus, entretanto não é linear, temperaturas moderadamente elevadas podem aumentar a adequação para transmissão, enquanto condições térmicas excessivas podem reduzir a sobrevivência dos mosquitos (de Souza e Weaver, 2024).

A magnitude da ameaça de distribuição de vetores de doenças, pode ser caracterizada por indicadores como densidade vetorial, índice de infestação, ocorrência de ovos e larvas, adequação climática e incidência das arboviroses, e não simplesmente pela temperatura ou precipitação isoladas. Modelos internacionais de distribuição do Aedes aegypti demonstram elevada adequação climática em extensas áreas do Brasil, embora a ocupação real também dependa da presença humana e das condições ambientais locais (Lowe et al., 2021).

No território brasileiro, os pesquisadores demonstraram que o efeito de secas e chuvas extremas sobre a dengue depende fortemente da urbanização. Episódios de seca extrema foram associados a aumento posterior do risco de dengue, sobretudo em áreas urbanizadas, resultado compatível com o mecanismo de armazenamento de água e abastecimento irregular doméstico. Portanto, pode existir uma defasagem temporal de semanas ou meses entre o evento climático e o aumento da transmissão, aspecto que deve ser incorporado à análise da duração e temporalidade da ameaça (Lowe et al., 2021).

Quanto à extensão espacial, a expansão da dengue no Brasil não acompanha exclusivamente às áreas de maior adequação climática. Lee et al. (2021) demonstraram que clima, urbanização e conectividade entre municípios atuaram conjuntamente na expansão geográfica da doença no país.

Assim, a mobilidade humana pode conectar áreas climaticamente adequadas e permitir que a transmissão se amplie para novos municípios (Lee et al., 2021).

Estudos mais recentes utilizando modelos dinâmicos de distribuição de espécies também identificaram forte sazonalidade da adequação climática para o Aedes aegypti no Brasil. Modelos construídos com registros mensais entre 2016 e 2022 apresentaram desempenho preditivo satisfatório e demonstraram que a adequação climática varia ao longo do ano, com forte influência da pressão de vapor atmosférico. Essa abordagem reforça que o risco vetorial deve ser analisado como fenômeno espacial e temporalmente dinâmico (Lowe et al., 2021).

No Brasil, modelos espaço-temporais já demonstraram que previsões climáticas sazonais podem contribuir para prever a incidência de dengue com meses de antecedência. Um sistema desenvolvido para a Copa do Mundo de 2014 produziu previsões probabilísticas para 553 microrregiões brasileiras com horizonte de aproximadamente três meses, incluindo Cuiabá entre as cidades analisadas (Lowe et al., 2014).

Uma revisão publicada em 2026 confirma que sistemas contemporâneos de alerta para dengue combinam dados meteorológicos, epidemiológicos e entomológicos e podem alcançar horizontes preditivos de várias semanas; alguns sistemas avaliados atingiram antecipação de até 13 semanas. Isso reforça a viabilidade de incorporar informações climáticas à vigilância sem assumir uma relação determinística entre clima e transmissão (da Costa et al., 2026).

Para hospedeiros e vetores silvestres, as alterações climáticas e ambientais podem igualmente modificar a adequação dos habitats e as áreas de contato entre seres humanos, vetores e reservatórios. Nesses casos, contudo, a previsibilidade tende a ser menor do que para o Aedes aegypti, devido à maior complexidade ecológica e à necessidade de informações sobre vegetação, distribuição das espécies e alterações do uso da terra (MacDonald et al., 2020; da Costa et al., 2026).

#Temperatura e ondas de calor em Cuiabá

A base para definir os eventos de calor, e de frio, analisados neste boletim, é a temperatura média diária de Cuiabá, estimada pelo ERA5-Land (Muñoz Sabater, 2019) de 1991 a 2026. Como referência, adotou-se a normal climatológica de 1991 a 2020 (WMO, 2017).

3.5 Fonte de dados

Foram utilizados dados de temperatura do ar média diária do tipo reanálise ERA5-Land. Considera-se a temperatura média diária neste estudo, ao invés da temperatura máxima, em razão dela expressar uma condição média do tempo para o dia, capaz de captar também a informação da temperatura mínima diária (Nicholls et al., 2008; Nairn; Fawcett,, 2015). Foi selecionada uma série histórica de dados entre os anos de 1991 a 2026. Essa série foi obtida através da API Open-Meteo (Zippenfenig, 2023), para as coordenadas: -15,601, -56,097. Tal ponto localiza-se na região central da área urbana sede de Cuiabá. Essa série do ERA5-Land não possui dados faltantes.

O intervalo de anos de 1991 a 2026 foi selecionado tanto para estimar a climatologia de referência para Cuiabá, com base no intervalo de 1991 a 2020, correspondendo a 30 anos, quanto para obter os dados anuais mais recentes da série, até o ano 2026. Daquela climatologia de 30 anos, foram estimados os percentis de referência para definição da métrica de calor por quantis históricos, adaptando parcialmente a classificação de Nairn; Fawcett (2015), contando três ou mais dias consecutivos que ultrapassam o valor do percentil definido. Será visto posteriormente que o recorte temporal de intervalo menor e mais recente, de 2010 a 2026, foi utilizado para as análises conjuntas de dados de morbimortalidade associados ao calor.

3.6 Série temporal da temperatura média diária

A partir de uma visualização diária dos dados da temperatura do ar média, foi possível observar como se deu a variação intra-anual e interanual da série de dados para Cuiabá, no intervalo de 1991 a 2026. A variação da intensidade da temperatura média diária ao longo da série pode ser observada através do mapa de calor (heatmap) no recorte temporal de 1991-2025 (Figura 15).

Ao longo dos 35 anos exibidos, se observa uma variação de temperatura intra-anual de janeiro a dezembro. Essa variação mostra a sazonalidade anual, com dias tanto mais quentes quanto mais frios, variando diariamente no intervalo de cada ano. Os meses de maio e agosto concentram, de modo geral, dias com menores médias diárias de temperatura. Com certa frequência pontual, atingem níveis abaixo de 20 e 15°C. Se observa um predomínio de dias com temperaturas médias acima de 20 e 25°C. A temperatura média diária geral para toda série é cerca de 26°C.

Também de modo intra-anual, pode ser observado entre os meses de setembro a dezembro, aproximadamente, a presença de dias com médias de temperaturas mais elevadas, acima de 25ºC e 30°C. Além desta condição, notou-se também maior frequência e intensidade de dias mais quentes na última década (Figura 15).

Figura 15. Heatmap da temperatura média diária (1991-2026) de Cuiabá- MT.

3.7 Decomposição STL

Foi realizada uma decomposição STL (Seasonal and Trend decomposition using Loess) da série temporal 1991-2025. Não foi incluso dados ano de 2026 por ele estar incompleto durante a escrita deste Boletim (outubro/2026). Na Figura 16, de cima para baixo, se observa os valores originais da série (temperatura do ar média diária), a tendência observada, a sazonalidade identificada em intervalo anual e os resíduos dos valores diários. A decomposição STL possibilita a verificação de condições de estacionariedade e tendência em séries temporais, além de ciclos de sazonalidade, e a componente aleatório ou ruído.

Figura 16. Decomposição STL da série temporal de temperatura média diária (1991-2025) em CuiabáMT.

Heatmap de Temperatura Média Diária (1991 - 2026) (ERA5 - Land)
Heatmap de Temperatura Média Diária (1991 - 2026) (ERA5 - Land)

3.8 Temperatura média diária e ondas de calor e de frio, Cuiabá, 1991–2026

Consideram-se ondas de calor os períodos de pelo menos três dias seguidos com temperatura média acima do percentil 95 (P95 = 29,9°C), e ondas de frio os períodos com temperatura abaixo do percentil 5 (P5 = 21,7°C), ambos calculados na normal 1991-2020. Foram estimados os percentis de referência para definição da métrica de calor por quantis históricos, adaptando parcialmente a classificação de Nairn; Fawcett (2015), contando três ou mais dias consecutivos que ultrapassam o valor do percentil definido.

Entre 1991 e 2026 foram identificados 676 dias em onda de calor e 436 dias em onda de frio, em média cerca de 19 e 12 dias por ano, respectivamente. As ondas de calor se concentram no segundo semestre e aparecem em quase todos os anos, desde 1993. A partir de 2019–2020 os episódios ficam visivelmente mais frequentes e intensos, com temperaturas médias diárias acima de 34°C em 2020, 2023 e 2024. As ondas de frio ocorrem em toda a série, com mínimas diárias próximas a 12°C em 1996 e 2023. Como os limiares foram definidos até 2020, a maior frequência de calor nos anos recentes indicam um clima mais quente que a normal de referência (Figura 17).

Figura 17. Temperatura média e ondas de calor de 1991 a 2026 para limiares (P5 e P95).











3.9 Temperatura média diária e ondas de calor e de frio segundo limiares condicionais à época do ano

Como análise complementar, os percentis 95 e 5 foram estimados por regressão quantílica, condicionados à sazonalidade e à tendência temporal. Assim, o limiar de calor varia ao longo do ano, de cerca de 26°C a 33°C, e o de frio varia de cerca de 18°C a 25°C. Um dia é considerado extremo quando foge do esperado para aquela época. Por esse critério foram identificados 378 dias em onda de calor e 256 dias em onda de frio, menos do que com os limiares fixos (676 e 436). A diferença ocorre porque, no auge da estação seca, o limiar condicional supera 29,9°C e nem todo dia quente da época é classificado como onda.

Nos momentos em que o limiar condicional é mais baixo (entre cerca de 26 e 28°C), dias bem menos quentes que 29,9ºC já contam com calor anômalo. O pico anual do limiar de calor sobe de cerca de 31 °C no início da série para cerca de 33°C nos anos recentes, o que reflete a tendência de aquecimento incorporada ao modelo. Nas análises de risco, no semáforo de calor e nos diagramas de controle deste boletim, utiliza-se o limiar fixo (P95 = 29,9°C). A definição condicional é apresentada como análise de sensibilidade.

Figura 18. Regressão quantílica condicionada à sazonalidade e tendência temporal.












4 Risco associado às ondas de calor

Para medir o efeito das ondas de calor na saúde, estimou-se o risco relativo (RR) de hospitalizações e óbitos nos dias seguintes à exposição, em comparação com dias sem onda de calor, utilizando o método DLNM preconizado por Gasparrini e colaboradores (2010). O modelo foi ajustado por sazonalidade, umidade relativa, amplitude térmica e dia da semana.

4.1 RR de hospitalizações e óbitos por doenças cardiovasculares e respiratórias no lag de 14 dias

Entre os desfechos de saúde, as hospitalizações por causas respiratórias foram mais observadas. No dia da exposição às ondas de calor o RR foi de 1,08 (IC 95% ≈ 1,02–1,14), ou seja, risco de hospitalizações foi 8% maior em dias com ondas de calor do que em dias sem onda de calor. O risco seguiu significativo até o 2º dia (RR ≈ 1,06 e 1,04). Depois, o RR volta a apresentar significância estatística no 14º dia de defasagem temporal (≈1,04 no 14º dia).

A redução do RR nos dias subsequentes à exposição é compatível com a hipótese de deslocamento temporal das hospitalizações, isto é, de antecipação de eventos que, na ausência da exposição, poderiam ocorrer mais tarde; entretanto, o gráfico, isoladamente, não permite confirmar esse mecanismo. O RR acumulado entre 0 e 14 dias foi de 1,18 (IC 95%: 0,92–1,52), correspondendo a uma estimativa pontual de aumento de 18% no risco de hospitalização, mas sem evidência estatística de associação. Para as hospitalizações por doenças cardiovasculares, as estimativas diárias do RR permaneceram próximas de 1, variando de 1,01 no dia da exposição a 1,00. O RR acumulado foi de 1,06 (IC 95%: 0,93–1,22), também sem evidência estatística de associação, o que não deve ser interpretado como comprovação de ausência de efeito.

Para os óbitos cardiovasculares, as estimativas diárias do RR permaneceram próximas do valor nulo ao longo da defasagem temporal analisada, variando de aproximadamente 1,02 no dia da exposição a 1,00 no 14º dia. O RR acumulado entre 0 e 14 dias foi de 1,20 (IC 95%: 1,00–1,43), correspondendo a uma estimativa pontual de aumento de 20% no risco de óbito cardiovascular. Entretanto, como o limite inferior do intervalo de confiança apresentado coincide com o valor nulo, a evidência de associação é limítrofe, e sua significância estatística não pode ser determinada com segurança sem os valores não arredondados.

Para os óbitos por doenças respiratórias, não foi observada evidência estatística de associação (RR acumulado: 0,90; IC 95%: 0,61–1,33), o que não implica ausência de efeito. A amplitude desse intervalo indica baixa precisão da estimativa, compatível com o pequeno número de óbitos respiratórios — em média, menos de um por dia —, que limita o poder estatístico para detectar associações (Figura 19).

Figura 19. Risco relativo de hospitalizações e óbitos por doenças cardiovasculares e respiratórias nos 14 dias após uma onda de calor.

5 Excesso de hospitalizações durante o calor

Para verificar se houve excesso de hospitalizações nas semanas de onda de calor, comparou-se o número de internações observado em cada semana epidemiológica com o esperado na ausência de onda de calor. Considerou-se excesso quando o número observado ultrapassou o limite superior do intervalo de confiança de 95% (IC 95%) do número esperado.

5.1 Hospitalizações por doenças cardiovasculares por semana epidemiológica, observadas e esperadas

Ao longo do triênio analisado, registraram-se 11 semanas epidemiológicas com volume de internações cardiovasculares acima do limiar esperado. Destas, apenas cinco coincidiram com períodos de altas temperaturas. O pico máximo da série com aproximadamente 70 admissões em uma única semana, no final de junho de 2025 foi registrado fora da janela climática de calor. Evidencia-se, portanto, que os eventos de excesso de internação não se restringem aos extremos térmicos. Ademais, ressalta-se que a base de dados de 2026 apresenta um corte temporal em 25 de julho, não contemplando, até o momento, os meses de maior incidência histórica de calor (Figura 20).

Figura 20. Diagrama de controle para hospitalizações por doenças cardiovasculares de 2024 a 2026, em Cuiabá-MT.

Fonte SIH Datasus Nota: Limite superior de um intervalo de confiança de 95% para a média, onde o valor de 1,96 é o valor crítico da distribuição normal padrão (Z).

5.2 Hospitalizações por doenças respiratórias

Registraram-se 8 semanas epidemiológicas com valores acima do limiar esperado. Destas, apenas duas ocorreram durante períodos de altas temperaturas (agosto de 2024), apresentando um desvio estatístico marginal. A concentração predominante das anomalias (5 semanas) situou-se entre abril e junho, trimestre historicamente caracterizado pelo aumento sazonal de infecções respiratórias. Conclui-se, portanto, que não há evidências de um padrão de excesso correlacionado ao calor.

Adicionalmente, a tendência de declínio observada ao final da série temporal (a partir de junho de 2026) configura-se como um provável viés decorrente de atraso nas notificações, não refletindo uma regressão real nos indicadores (Figura 21).

Fonte SIH Datasus
Fonte SIH Datasus

6 Excesso de mortalidade associado a ondas de calor

Extremos de temperatura, como ondas de calor, podem agravar condições de saúde preexistentes, especialmente em grupos vulneráveis, como idosos. Esse agravamento pode aumentar o risco de óbito por diversas causas, principalmente doenças cardiovasculares e respiratórias e também doenças renais e metabólicas como diabetes mellitus.

6.1 Mortalidade por doenças cardiovasculares e respiratórias por semana epidemiológica

Ao longo dos 16 anos analisados, foram identificadas 11 semanas epidemiológicas com número de óbitos por doenças cardiovasculares acima do limiar esperado, das quais quatro coincidiram com ondas de calor. O maior número semanal de óbitos da série, aproximadamente 47, foi registrado em outubro de 2020, durante uma onda de calor e em contexto de agravamento da pandemia de COVID-19. Além disso, cinco das 11 semanas com mortalidade acima do limiar concentraram-se no biênio 2020–2021. Essa concentração temporal sugere possível influência do contexto pandêmico sobre a mortalidade observada, mas não permite quantificar sua contribuição nem atribuir os excessos às ondas de calor com base apenas na coincidência temporal (Figura 22).

Para óbitos por doenças respiratórias, três semanas epidemiológicas ultrapassaram o limiar esperado, nos anos de 2019, 2020 e 2023, todas coincidentes com ondas de calor. Embora essa coincidência seja compatível com uma possível associação, ela não é suficiente para estabelecer uma relação causal. O pequeno número de óbitos — média aproximada de três por semana — pode reduzir a precisão das estimativas e o poder estatístico para detectar associações, mas não determina, isoladamente, sua significância estatística. A interpretação desses episódios deve considerar a variabilidade das contagens semanais, o método utilizado para definir o limiar esperado e a possível influência de outros fatores, como sazonalidade, circulação de agentes infecciosos e contexto pandêmico.

Figura 22. Excesso de mortalidade associado a eventos de calor entre 2010 e 2026 em Cuiabá- MT.

Fonte SIH Datasus ## Mortalidade por causas sensíveis ao calor

Este agrupamento, que compreende afecções cardiovasculares, respiratórias, renais, diabetes, desidratação e efeitos diretos das altas temperaturas, registra um patamar de 25 a 30 óbitos por semana. Identificou-se excesso de mortalidade em quatro semanas, sendo que apenas uma coincidiu com um evento de estresse térmico: o final de agosto de 2024 (registro de 48 óbitos, ante 30 esperados). As demais anomalias (primeira semana de 2025 e duas ocorridas entre março e abril de 2026) registraram-se em períodos sem ondas de calor (Figura 23).

Figura 23. Mortalidade por causas sensíveis ao calor entre 2024 e 2026 em Cuiabá- MT.

Fonte SIH Datasus
Fonte SIH Datasus

7 Semáforo de calor e confirmação pela saúde

Neste capítulo é apresentado a distribuição temporal dos níveis de calor e sua concomitância com o excesso de internações por doenças cardiovasculares e respiratórias em Cuiabá, entre 2010 e 2026. A integração dos níveis de calor com a ocorrência de excesso de internações cardiovasculares e respiratórias fornece subsídios para o desenvolvimento e o aprimoramento de sistemas de alerta em saúde. Ao permitir a identificação de períodos em que os gatilhos térmicos ocorreram simultaneamente a internações acima do limite esperado, o gráfico contribui para avaliar os critérios de alerta, orientar o planejamento dos serviços e direcionar ações de proteção aos grupos vulneráveis.

As semanas epidemiológicas foram classificadas nos níveis normal, atenção, alerta e emergência, conforme a intensidade e a persistência das temperaturas elevadas. As marcações em “X” identificam as semanas em que o acionamento de um gatilho de calor coincidiu com um número de internações superior ao limite superior do intervalo de confiança de 95% do número esperado na ausência de onda de calor.

7.1 Relação entre semanas de calor e excesso de morbimortalidade

O período de maior elevação térmica em Cuiabá concentra-se historicamente entre os meses de agosto e dezembro. Observa-se que os eventos de calor extremo tornaram-se mais frequentes e intensos em anos recentes, com destaque para 2020, 2021 e o triênio 2023–2025. Contudo, a análise da série histórica revela que a expressiva maioria das semanas sob estresse térmico não resultou em incidência de casos ou óbitos acima do limiar esperado.

Ao longo de 17 anos, registraram-se 12 semanas com excesso de internações e 13 com excesso de óbitos por causas cardiovasculares. No âmbito das doenças respiratórias, constataram-se seis semanas anômalas para internações e seis para óbitos. Considerando um universo de aproximadamente 240 semanas de calor, a distribuição de probabilidade estatística prevê a ocorrência de cerca de 6 semanas anômalas por puro acaso em cada indicador. Consequentemente, apenas os agravos cardiovasculares apresentaram desvios com significância estatística acima da linha de base do acaso. Salienta-se que a base de dados de 2026 ainda não engloba os meses de maior severidade climática (Figura 24).

Figura 24. Gatilhos de calor para internações e óbitos cardiovasculares e respiratórios em Cuiabá- MT entre 2020 e 2026.

Fonte SIH Datasus
Fonte SIH Datasus

8 Causas específicas: diabetes, doenças renais, cardiovasculares e respiratórias

A análise do painel de múltiplos gráficos demonstra a mortalidade de algumas por alguns agravos de doenças, que podem se intensificar com dias de ondas de calor; doenças renais (CID N17 - N19), diabetes mellitus (CID E10 - E11.5) E, além das já discutidas, doenças cardiovasculares (CID I10- I15, I20 - I25, I46 - I50, I6- - I68 e I95) e respiratórias (CID J20 - J22, J40 - J47, J80 - J81 e J86). Foi definido como excesso de mortalidade, os registros de óbitos que ultrapassaram o limite superior projetado. A figura 25 mostra o comportamento desse desfecho frente aos períodos de temperaturas extremas na capital. Evidencia-se que as ondas de calor mais severas, marcadas pelas faixas vermelha e laranja, concentram-se no segundo semestre, impactando os grupos de agravos de maneira distinta (Figura 25).

Impacto Cardiovascular Direto (2024): O grupo de doenças cardiovasculares registrou apenas duas semanas com excesso de óbitos em todo o período. Contudo, chama atenção o registro expressivo ocorrido no final do 3º trimestre de 2024 (linha azul clara), que ultrapassou o limite esperado exatamente durante um período de emergência por onda de calor. A outra anomalia, no início de 2026, ocorreu sem influência térmica.

Sensibilidade Metabólica/Diabetes: Foi o grupo com o maior número de semanas anômalas (seis no total). Do total, quatro semanas ocorreram simultaneamente a períodos de calor intenso nos finais de 2024 e 2025. É importante ressaltar que a incidência basal deste agravo é muito baixa, logo, pequenas variações absolutas são suficientes para ultrapassar o limite estatístico.

Ausência de associação no entre ondas de calor e mortalidade por agravos respiratórios e renais: As doenças respiratórias (três semanas de excesso) e renais (duas semanas de excesso) apresentaram registros de mortalidade totalmente desvinculados dos extremos de calor.

As anomalias nestes grupos ocorreram fora das faixas de alerta térmico (fundo branco), concentrando-se predominantemente nos primeiros semestres, o que sugere a influência da sazonalidade, como a circulação viral no caso respiratório. Já o comportamento dos óbitos por agravos renais frente às ondas de calor descreve uma ausência de associação visual ou estatisticamente detectável na análise realizada, mas não permite concluir, por si só, que o calor não tenha efeito sobre a saúde renal. A distribuição observada pode refletir a sazonalidade dos óbitos, a composição heterogênea dos agravos renais, o número de eventos e a forma de definir e agregar a exposição ao calor e os desfechos.

Figura 25. Mortalidade por doenças respiratórias entre 2024 e 2026 em Cuiabá, MT.

Fonte SIH Datasus
Fonte SIH Datasus

9 Perfil demográfico de hospitalizações e mortalidade

Este capítulo apresenta o perfil demográfico das hospitalizações e mortalidade por doenças cardiovasculares e respiratórias na população cuiabana, no biênio 2025 e 2026. A análise considera a distribuição desses eventos segundo faixa etária, sexo e raça/cor, com o objetivo de identificar a população acometida e as diferenças entre os grupos demográficos. Essa caracterização fornece subsídios para a vigilância em saúde e o planejamento de ações preventivas e assistenciais, inclusive diante de ondas de calor.

9.1 Hospitalizações por doenças cardiovasculares e respiratórias segundo idade, sexo e raça/cor

Foram registradas 2.327 internações em 2025, e 1.281 em 2026 (com dados preliminares até 25 de julho). No consolidado de 2025, aproximadamente 60% dos pacientes admitidos possuíam 60 anos ou mais. Observou-se a predominância do sexo masculino nas faixas etárias até 79 anos, com especial destaque para o grupo de 50 a 59 anos, no qual o volume de internações de homens foi mais que o dobro do registrado entre as mulheres.

Chama atenção o expressivo incremento nas admissões do público infantil em 2026, apenas nos primeiros sete meses do ano, contabilizaram-se 162 internações de menores de 1 ano, sendo 71,6% (116) do sexo masculino, volume que já ultrapassa o total de 2025 (136 registros). Na faixa etária entre um e quatro anos, ocorreram 72 internações no período parcial de 2026, ante 51 no ano anterior completo. Embora o recorte analítico não especifique as causas etiológicas, a defasagem temporal de 2026 engloba o outono, período de reconhecida sazonalidade para aumento de infecções respiratórias.

Em relação ao perfil de raça/cor, a análise longitudinal demanda cautela, possuindo confiabilidade estatística apenas a partir de 2023 em anos anteriores, a subnotificação desse campo oscilava criticamente entre 9% e 50%. A partir da estabilização dos dados, 2023 em diante, constata-se que cerca de 8 em cada 10 pacientes internados (79% a 84%) são indivíduos considerados pardos.

Figura 26. Distribuição demográfica das internações por doenças cardiovasculares e respiratórias em Cuiabá, MT.

Fonte SIH Datasus
Fonte SIH Datasus

9.2 Mortalidade por doenças cardiovasculares e respiratórias segundo idade, sexo e raça/cor

Ocorreram 1.139 óbitos em 2025, e 597 em 2026 (até 25/07). A expressiva maioria dos casos (81%) concentrou-se na população idosa (60 anos ou mais), sendo que a faixa etária de 80 anos ou mais reuniu aproximadamente um terço de todas os óbitos (393).

O recorte por sexo revela que a mortalidade feminina ocorre predominantemente em idades mais avançadas, 42% das mulheres que foram a óbito tinham 80 anos ou mais, contrastando com 28% dos homens na mesma faixa etária.

Apesar da alta incidência de internações pediátricas descrita no item 9.1, a letalidade nesses grupos é estatisticamente rara. Durante todo o ano de 2025, registraram-se apenas 4 óbitos em menores de um ano e nenhuma notificação na faixa entre um e quatro anos.

A distribuição demográfica de mortalidade por raça/cor apresenta estabilidade na série histórica desde 2010. O perfil é composto por cerca de metade de indivíduos autodeclarados pardos (48% a 58%), um terço de indivíduos brancos (29% a 37%) e uma parcela entre 7% e 15% de indivíduos pretos. Outras categorias demográficas e registros ignorados (sem informação) somam menos de 5% do montante.

Figura 26. Distribuição demográfica dos óbitos por doenças cardiovasculares e respiratórias em Cuiabá, MT, entre 2025 e 2026.

Fonte SIH Datasus
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10 Ocupação de leitos

Ondas de calor representam um desafio para a saúde pública, principalmente entre os grupos populacionais vulneráveis, nesse contexto, avaliar a ocupação de leitos por pacientes com doenças cardiovasculares e respiratórias durante ondas de calor permite compreender a pressão sobre os serviços de saúde e subsidiar medidas de preparação e resposta.

10.1 Censo hospitalar diário no SUS (Enfermaria e UTI)

O censo diário de pacientes internados por agravos cardiovasculares manteve-se na faixa de 40 a 70 indivíduos no período, com uma proporção de aproximadamente 25% (um em cada quatro) alocados em Unidades de Terapia Intensiva (UTI). Para as doenças respiratórias, a taxa de ocupação variou de 3 a 10 pacientes diários no segundo semestre de 2025, apresentando ascensão para 8 a 19 pacientes ao dia entre fevereiro e maio de 2026, com pico de demanda registrado em meados de abril.

Na análise descritiva da série, durante o período de temperaturas mais elevadas — do final de agosto ao início de dezembro de 2025 — a ocupação hospitalar manteve-se em níveis semelhantes aos observados nos meses sem anomalia térmica. Os maiores números diários de internações cardiovasculares (66 a 72 pacientes) ocorreram tanto em períodos quentes quanto amenos, sem concentração temporal evidente. Já a ocupação dos leitos por causas respiratórias (19 pacientes) teve seu maior número no outono, fora do período de calor extremo. Esses achados não sugerem uma associação temporal clara entre os eventos de calor e os indicadores analisados, mas, por se tratar de uma análise descritiva, não permitem estabelecer causalidade nem descartar efeitos com defasagem temporal. A redução da ocupação nas semanas finais da série, a partir de junho de 2026, pode refletir atraso na atualização dos registros do SIH/SUS; portanto, deve ser interpretada com cautela e não necessariamente como redução real da demanda hospitalar (Figura 26).

Figura 26. Ocupação dos leitos e evolução diária das internações no SUS para 2025 e 2026.

Fonte SIH Datasus # Perfil epidemiológico: Doenças Cardiovasculares e Respiratórias

A análise da série histórica revela uma tendência de alta nas admissões hospitalares para ambos os grupos de doenças entre 2021 e 2025. As hospitalizações por causas cardiovasculares quase dobraram no período, saltando de 1.052 para 1.922 registros anuais, acompanhadas por um crescimento gradativo nos óbitos totais (de 739 para 974). Para as doenças respiratórias, as hospitalizações passaram de 216 para 405 ao ano. Apesar desse aumento no volume de pacientes respiratórios, observou-se uma redução drástica na gravidade dos desfechos intra-hospitalares: a letalidade caiu continuamente de 18,1% em 2021 para 7,4% em 2025 (Figura 27).

Figura 27. Perfil epidemiológico para doenças cardiovasculares e respiratórias em Cuiabá- MT, de 2021 a 2026.

Fonte SIH Datasus # Perfil epidemiológico: Mortalidade Cardiovasculares e Respiratórios

Compreender a vulnerabilidade populacional é uma etapa essencial na avaliação de impactos climáticos, uma vez que o estresse térmico provocado pelas ondas de calor não afeta a sociedade de maneira uniforme. A suscetibilidade a agravos de saúde, especialmente cardiovasculares e respiratórios, é moldada tanto por fatores fisiológicos que tornam grupos etários, como idosos e crianças, mais sensíveis à regulação da temperatura corporal quanto por determinantes sociais e ambientais, que muitas vezes se refletem nos indicadores de raça/cor.

No entanto, ao analisar o comportamento da mortalidade nesses grupos específicos durante as semanas de calor, o cenário local demonstrou estabilidade. A média móvel de óbitos cardiovasculares e respiratório em quatro semanas mantiveram-se próximas ou mesmo abaixo do esperado para todas as faixas etárias e recortes de raça/cor, sem registro de excesso estatisticamente significativo. Embora tenha sido observada uma elevação nominal de 22% nos óbitos cardiovasculares entre pessoas pretas, a ampla margem de erro não permite classificar esse aumento como um impacto comprovado do calor.

10.2 Mortalidade cardiovasculares por faixa etária

Nas semanas de calor, os óbitos cardiovasculares ficaram próximos do esperado em todas as faixas O/E entre 0,77 e 1,06, sem excesso significativo. Os idosos de 80 anos ou mais ficaram um pouco abaixo (0,88). Os maiores valores (cerca de 10 óbitos por semana em idosos de 80+, contra 7 esperados, no primeiro semestre de 2025) ocorreram fora do período de onda de calor. Menores de 15 anos não aparecem, por terem menos de 30 óbitos.

Figura 28. Óbitos cardiovasculares por faixa etária, observado por esperado de 2024 a 2026.

Fonte SIH Datasus ## Mortalidade respiratórios por faixa etária

Foram registrados poucos óbitos por causas respiratórias - em geral menos de 2 por semana em cada faixa e não foi identificado excesso estatisticamente significativo durante o período de onda de calor, as razões entre O/E foram 0,60 e 1,48. Entre crianças e adultos jovens, a imprecisão das estimativas, evidenciada por intervalos de confiança amplos, impede conclusões robustas; nas crianças, por exemplo, a razão O/E foi de 1,30, com limite superior de 3,5. Na faixa de 70 a 79 anos, a razão O/E foi de 0,60, indicando menos óbitos observados do que esperados. Contudo, diante do pequeno número de eventos e das múltiplas comparações realizadas, esse achado deve ser interpretado com cautela e pode decorrer do acaso, não permitindo inferir efeito protetor do calor.

Figura 29. Óbitos respiratórios por faixa etária, observado por esperado de 2024 a 2026.

Fonte SIH Datasus
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10.3 Mortalidade cardiovasculares por raça/cor

Nas semanas classificadas com onda de calor, a razão entre óbitos observados e esperados O/E foi de 0,97 entre pessoas brancas e 0,87 entre pessoas pardas, sem indicação de excesso em relação ao esperado. Entre pessoas pretas, a razão O/E foi de 1,22, correspondente a uma estimativa de 22% mais óbitos; contudo, o intervalo de confiança de 95% (0,93–1,50) inclui 1, de modo que não há evidência estatística de excesso. Os maiores números semanais de óbitos, cerca de 10 entre pessoas brancas, em meados de 2025, e 16 entre pessoas pardas, em abril de 2026 ocorreram fora dos períodos de onda de calor. Esses dados descritivos, por si só, não permitem estabelecer uma associação entre calor e mortalidade cardiovascular (Figura 30).

Figura 30. Óbitos cardiovasculares por raça/cor, observado por esperado de 2024 a 2026.

Fonte SIH Datasus
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10.4 Óbitos respiratórios por raça/cor

Nas semanas classificadas com onda de calor, a razão entre óbitos respiratórios observados e esperados O/E foi de 1,03 entre brancos, 0,94 entre pardos e 0,60 entre pretos sendo o intervalo de confiança de 95% (0,05–1,16) entre pretos. Entre as pessoas pretas, a estimativa se tornou imprecisa devido ao amplo intervalo de confiança, não sendo possível associar os óbitos respiratórios e a raça/cor durante os períodos de ondas de calor (Figura 31).

Figura 31. Óbitos respiratórios por raça/cor, observado por esperado de 2024 a 2026.

Fonte SIH Datasus
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11 Dias por faixa de temperatura e risco de hospitalizações e óbitos

A estratificação dos dias segundo diferentes faixas de temperatura permite avaliar a relação entre diferentes níveis de exposição térmica e a ocorrência de desfechos adversos à saúde. Sob uma perspectiva epidemiológica, essa abordagem possibilita comparar a frequência de hospitalizações e óbitos entre categorias de temperaturas, estimando medidas de associação como o risco relativo e identificando possíveis gradientes de risco. Dessa forma é possível verificar se a exposição a temperaturas mais elevadas está associada ao aumento da morbidade e mortalidade dos desfechos mais relevantes a este contexto.

Observou-se maior frequência de dias com temperaturas elevadas em comparação com os valores de referência climatológica do período de 1991 a 2020. As temperaturas superiores ao percentil 95 (P95; 29,9 °C) ocorreram em 10,4% dos dias analisados, aproximadamente o dobro da frequência esperada (5,3%), correspondendo a cerca de 38 dias por ano. Para temperaturas superiores ao percentil 99 (P99; 31,3 °C), a frequência observada foi de 4,0%, em comparação com 1,1% esperado.

Na análise da associação entre temperatura e mortalidade, verificou-se aumento estatisticamente significativo de 22% no risco relativo de óbitos por doenças cardiovasculares nos dias com temperaturas superiores ao P99, em comparação aos dias com temperaturas consideradas típicas (RR = 1,22; IC95%: 1,09–1,37). Para temperaturas situadas entre os percentis 95 e 99, não foi identificada associação estatisticamente significativa com a mortalidade cardiovascular (RR = 1,03). Da mesma forma, não foram observadas associações estatisticamente significativas entre temperaturas elevadas e mortalidade por doenças respiratórias ou hospitalalizações nos desfechos avaliados. Por outro lado, temperaturas extremamente baixas, inferiores a 21,7 °C, também estiveram associadas a um aumento de 15% no risco relativo de mortalidade cardiovascular (RR = 1,15; IC95%: 1,05 - 1,26). Esses achados sugerem uma associação entre a exposição a temperaturas extremas, tanto elevadas quanto reduzidas, e a mortalidade cardiovascular, com maior magnitude da associação nos dias de calor extremo (Figura 21).

Figura 21. Frequência de dias por quantil de controle e risco relativo para internações e óbitos de 2010 a 2026.

Fonte SIH Datasus
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11.1 Eventos de calor por período

Observou-se aumento expressivo na frequência de eventos de calor extremo, definidos pela ocorrência de três ou mais dias consecutivos com temperaturas superiores a 29,9 °C (P95). Foram registrados 12 eventos entre 2010 e 2014, 14 entre 2015 e 2019 e 46 entre 2020 e 2026, evidenciando aumento da frequência anual de aproximadamente 2 a 3 eventos para cerca de 7 eventos no período mais recente.

Entre 2020 e 2026, os eventos apresentaram duração mediana de 6 dias, com intervalo interquartil de 4 a 9 dias, sendo identificados episódios prolongados de até 22 e 24 dias consecutivos. Além do aumento na frequência e na duração, verificou-se maior intensidade dos extremos de temperatura, com máximas superiores a 34 °C durante os eventos, condição não observada nos períodos anteriores. Adicionalmente, aproximadamente 50% dos eventos registrados entre 2020 e 2026 apresentaram temperaturas superiores ao percentil 99 (P99; 31,3 °C). Esses resultados evidenciam uma intensificação dos eventos de calor extremo, caracterizada pelo aumento de sua frequência, duração e magnitude térmica, indicando maior exposição populacional a condições potencialmente adversas à saúde (Figura 22).

Figura 22. Eventos de calor por período: duração e pico de 2010 a 2026. Fonte SIH Datasus

12 Previsões de morbimortalidade até o fim de 2026

A análise preditiva da morbimortalidade por desfechos cardiovasculares e respiratórios permitiu estimar a evolução esperada desses agravos ao longo do tempo e avaliar de que maneira eventos climáticos extremos, como as ondas de calor, podem influenciar sua ocorrência.

Com base em modelagem preditiva (ARIMA ajustado por sazonalidade e tendência), estima-se um cenário de estabilidade com leve declínio para o segundo semestre de 2026. Para as doenças cardiovasculares, a projeção aponta para 959 hospitalizações acumuladas a partir do final de maio (IC95% 787–1.196) e 416 óbitos a partir do final de julho (IC95% 356–488) até o encerramento do ano. A curva de previsão central demonstra uma manutenção do volume esperado, sem indicação de picos anômalos.

Para as doenças respiratórias, os números absolutos mantêm-se em patamares significativamente menores. O modelo prevê 258 hospitalizações (IC95% 177–362) e 83 óbitos (IC95% 59–114) para os períodos respectivos. A linha de tendência para as internações respiratórias reflete o declínio progressivo esperado logo após a superação do pico sazonal clássico de outono/inverno. Embora os intervalos de confiança (IC95%) possuam amplitude para absorver as flutuações semanais normais, as estimativas apontam para uma trajetória sob controle, indicando que os casos devem seguir o comportamento climático e sazonal esperado até dezembro (Figura 23 e 24).

Figura 23. Óbitos por doenças cardiovasculares e respiratórias, uma previsão até o fim de 2026.

Fonte SIH Datasus Figura 24. Hospitalizações por doenças cardiovasculares e respiratórias, uma previsão até o fim de 2026. Fonte SIH Datasus # Estratégias para mitigação dos impactos do calor na saúde

As estratégias de mitigação dos impactos do calor sobre a saúde envolvem um conjunto de ações intersetoriais destinadas a reduzir a exposição da população às temperaturas extremas, diminuir sua vulnerabilidade e ampliar a capacidade de resposta dos serviços de saúde.

A redução da morbimortalidade associada a extremos climáticos exige uma abordagem multissetorial, com ações articuladas entre vigilância ambiental, atenção primária e rede hospitalar, além de ações governamentais como, melhorar a infraestrutura urbana e políticas de adaptação climática, para reduzir a exposição ao calor extremo, prevenir internações e óbitos, proteger grupos vulneráveis e preservar o bem-estar da população. A OMS recomenda que municípios e governos desenvolvam planos de ação para calor e saúde, contemplando sistemas de alerta precoce, identificação de populações vulneráveis, preparação dos serviços de saúde e intervenções urbanas. Em Cuiabá, o monitoramento tem se apoiado no cruzamento de dados de saúde e clima, evidenciado pela implementação do “Semáforo de Calor” (sistema de gatilhos de alerta e emergência) e de diagramas de controle para vigiar o excesso de internações e óbitos. As estratégias de enfrentamento devem priorizar a adequação da capacidade de resposta da rede SUS (enfermarias e UTIs), especialmente no segundo semestre (agosto a dezembro), período histórico de maior estresse térmico na capital. Além disso, as ações devem ser direcionadas aos grupos mais suscetíveis identificados no perfil demográfico: idosos acima de 60 anos (que concentram 81% da mortalidade) e o público infantil menor de 1 ano (que apresenta forte incidência de internações respiratórias).

13 Considerações finais

As mudanças climáticas configuram-se como um desafio crescente para Cuiabá, com ondas de calor tornando-se visivelmente mais frequentes e intensas a partir do biênio 2019–2020, atingindo médias diárias acima de 34 °C em anos recentes. Os dados demonstram que, embora os extremos térmicos não sejam os únicos determinantes do aumento de morbimortalidade, há sinais sugestivos de elevação de risco para internações respiratórias e óbitos cardiovasculares nos dias subsequentes à exposição ao calor. O perfil epidemiológico consolidado indica uma tendência de alta no volume absoluto de internações cardiovasculares e respiratórias entre 2021 e 2025, contraposta por uma queda contínua na letalidade hospitalar destes agravos. O monitoramento contínuo das variáveis climáticas integradas aos indicadores de saúde permanece fundamental para orientar políticas públicas que garantam assistência qualificada e oportuna, visando mitigar o impacto do aquecimento global sobre a saúde da população cuiabana.

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15 Apêndices

15.1 Materiais e Métodos

Para as descrições sociodemográfica, econômica e territorial de Cuiabá foram utilizados dados do Censo Demográfico IBGE de 2022 e dados disponíveis do e-pec SUS de agosto de 2026.

Foram utilizados dados secundários de hospitalizações obtidos por meio de consultas ao Sistema de Informações Hospitalares do Sistema Único de Saúde (SIH/SUS), disponibilizado pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS) filtrados para o município de Cuiabá, MT, entre 2010 e 2025, correspondendo a um período de 16 anos.

Os dados referentes às hospitalizações por doenças do aparelho circulatório, classificadas segundo o CID-10, códigos foram I10 - I15, I20 - I25, I46 - I50, I60 - I68 e I95 a I99, para as doenças do aparelho respiratório foram utilizados os códigos J20 -J22, J40 - J47, J80 - J81 e J86. Foram calculadas as taxas de internação para cada grupo de doenças, considerando-se o número de hospitalizações registradas e a população residente em Cuiabá no período correspondente. As taxas foram expressas por 10.000 habitantes.

Os dados referentes aos óbitos por doenças do aparelho circulatório e por doenças do aparelho respiratório foram obtidos por meio de consultas ao Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), também disponibilizado pelo DataSUS. Foram considerados os mesmos grupos de causas definidos pelos códigos da CID-10: para doenças do aparelho circulatório foram utilizados os códigos I10 - I15, I20 - I25, I46 - I50, I60 - I68 e I95 a I99, para as doenças do aparelho respiratório foram utilizados os códigos J20 -J22, J40 - J47, J80 - J81 e J86.Também foram utilizados os códigos para outras doenças como diabetes mellitus E10.2 - E10.5, E11.2 - E11-5 e para doenças renais os códigos utilizados foram N17 a N19.

As informações foram organizadas segundo sexo, raça/cor e faixa etária. Para cada categoria, foram calculadas as frequências absolutas e relativas e, quando aplicável, as respectivas taxas de internação e mortalidade.

Foi utilizado o método DLNM (Distributed Lag Non-Linear Models), ou Modelos Não Lineares de Defasagem Distribuída, para o cálculo de risco relativo de hospitalizações e de óbitos por causas cardiovasculares e respiratórias nos 14 dias que sucederam à exposição às ondas de calor. Esse método foi desenvolvido por Gasparrini e colaboradores (2010) e é amplamente utilizado na epidemiologia ambiental para avaliar, de forma simultânea, os efeitos não lineares e tardios (de tempo/defasagem) que fatores como a poluição do ar e temperaturas extremas exercem sobre a saúde humana.

A análise preditiva da morbimortalidade por desfechos cardiovasculares e respiratórios deu-se pelo modelo ARIMA (AutoRegressive Integrated Moving Average) ajustado por sazonalidade e tendência, trata -se de uma das abordagens clássicas de previsão de séries temporais, proposta por Wilson et al., (2015). Ele descreve o valor da série em cada instante a partir de seus próprios valores passados e dos erros passados, sendo indicado para séries com sazonalidade e dependência temporal, como as hospitalizações semanais. O modelo é identificado por três parâmetros, ARIMA (p, d, q): p é o número de termos autorregressivos (AR), que relacionam o valor atual aos valores anteriores; d é o número de diferenciações aplicadas para tornar a série estacionária, isto é, sem tendência que mude a média ao longo do tempo; e q é o número de termos de média móvel (MA), que incorporam os erros de previsão anteriores (Hyndman e Athanasopoulos, 2021).

Foram utilizados dados de temperatura do ar média diária do tipo ERA5-Land (ECMWF). Foi selecionada uma série histórica de dados entre os anos de 1991 a 2026. Essa série foi obtida através da API Open-Meteo, para as coordenadas: -15,601, -56,097.

Foi considerado como onda de calor os períodos de pelo menos três dias seguidos com temperatura média acima do percentil 95 (P95 = 29,9°C) e P99 (P99= 31,3 °C) das médias de temperatura nos 30 anos da série histórica de 1991 a 2026.




Relatório produzido pelo CISC - Centro de Informação em Saúde e Clima - Cuiabá em 22/10/2026

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